Ninguém jamais soube, mas ele morreu por amor. Foi uma
história fascinante, a desse rapaz. Como posso começar?
Em primeiro lugar é bom que eu me apresente, o que no
momento me parece a parte mais difícil dessa história. Eu sou o que se poderia
chamar de expressão racional do complexo nervoso dele. Sou suas conexões
nervosas, seu sistema límbico, suas programações genéticas sobre como reagir e
criar modelos de pensamento a partir de cada manifestação de seu ambiente. Sou
a expressão do que havia de inexpressável nele; a razão manifestada a partir do
que nele havia de irracional; o pensamento advindo de interações nervosas que
jamais puderam progredir à consciência. Se quiser, por conveniência, pode me
chamar de “alma” dele. Só que eu não vivo fora do corpo dele. Ele morreu e eu
morri junto.
Apenas no dia de sua morte fui capaz de gerar essa expressão
em palavras, contar essa história. Por que? Por compaixão. Deve ter sido por
uma falha na replicação do DNA, dessas que dão de tempos em tempos e fazem as
espécies alterarem, essa história de um complexo nervoso com compaixão.
Geralmente nós, as “almas”, queremos que os desejos dos indivíduos que
habitamos vão para o diabo – estamos apenas reagindo aos estímulos do meio
ambiente e reprogramando sistemas mentais de acordo com as instruções genéticas
que nos foram impostas. Mas eu me compadeci dele, pois ele sempre desejou que
as pessoas soubessem que ele morreu por amor. Um desses desejos sem sentido que
eu tive de dar a ele devido a alguns instintos sexuais e sociais.
Desde criança fiz com que ele sempre fosse muito vulnerável
aos estímulos emocionais. Ouvia seu avô, por exemplo, com um senso raro de
admiração, afeto e respeito. Seu avô lhe disse uma única vez para molhar os
pulsos antes de pular na água fria e usei toda a admiração dele para programá-lo
a, pelo resto de sua vida, executar ritual quase solene de mergulhar os pulsos
na água, aguardar minutos e só então avançar no mar. Contou-lhe um dia uma
história de atropelamento e eu o conduzi a sempre olhar para os dois lados
antes de atravessar a rua.
Ele brincava com seus vizinhos do prédio de todo tipo de
esporte. Desde sempre dizia que sua brincadeira favorita era o futebol. Não
era. Ele não sabia, mas sua brincadeira favorita quando era mais criança era o
cabo de guerra. Ignorou esse sublime sabor por cessão aos desejos de seus
amigos. E, depois de adolescente, enquanto continuava dizendo que seu jogo
favorito era o futebol (uma vez disse que era apostar corrida, devido ao calor
de uma vitória, mas logo esqueceu), sua brincadeira favorita era mesmo o jogo
de adedanha. Para quem não sabe, adedanha é aquele jogo em que se sorteia uma
letra e cada jogador tem que falar uma palavra começando por aquela letra,
geralmente de acordo com diferentes categorias (animal, cidade, objeto). Nessa
época, ele jogava muito com seus pais e
com sua irmã.
Um dia um amigo mais velho da família também jogou. Dei a ele
uma vontade enorme de se mostrar inteligente perante o estrangeiro, tão grande
que ele se afobou e errou uma palavra simples. País com A: América. Todos riram
dele. Ele queria fugir, queria sumir
dali. Não soubera onde estava com a cabeça. Eu sabia. Ele estava com a cabeça
concentrada em ser melhor contra o intruso que invadira o jogo favorito dele
com sua família. Desde esse dia passou a dizer que não gostava de nenhum jogo
“parado”. Reforçou a tese da preferência pelo futebol. Era mentira. Ele sempre
guardou consigo as delícias daquele jogo. E toda vez que negava brincar com
algum grupo, para manter a imagem que então criara de si, remoía-se por dentro.
Sim, eu programei sua mente para impedi-lo de querer jogar
de novo, de modo a fugir da decepção. Fazer o que? Naquela época eu não tinha
nenhuma compaixão. Não tinha nenhum remorso, por exemplo, de programá-lo a
apertar sempre três vezes o botão do andar desejado no elevador, e de lhe
causar angústia inescapável quando alguém apertava mais ou menos vezes o botão.
Era assim que tinha que ser, para estimulá-lo a buscar padrões – uma
característica fundamental num mundo em que quem melhor organiza as informações
recebidas tem melhor chance de obter recursos para sobreviver.
Mas enfim, naqueles tempos passados, quando ainda jogava
adedanha com sua família, seu momento de maior felicidade era quando tinha que
preencher flor com a letra R. Ele colocava “rosa” e passava rapidamente para a
próxima coluna. Não havia necessidade de ficar ponderando sobre outra flor,
raciocinava. Só eu sabia a verdade. Que quando ele preenchia “rosa”, sua hipófise
lhe lançava endorfinas através do sistema sanguíneo e ele suspirava. Que seu
pensamento profundo, oculto, era rosas brancas. Não a palavra em si, mas todo o
efeito que a imagem, o odor ou a menção ao nome gerava nas intrincadas conexões
com as quais eu costumava trabalhar em sua mente.
Este o fato que eu sempre escondi dele: a partir do início
de sua adolescência, a maior parte de sua excitação sexual, passional ou
amorosa em qualquer sentido, em todas as áreas de sua vida, esteve vinculada a
rosas brancas.
Permita-me explicar. Quando ele iniciou as experimentações da puberdade
(especialmente as excitações mentais, estas que costumam passar esquecidas
pelos fisiologistas), ele viu uma figura
numa revista com uma mulher deitada num campo verde e rodeada de rosas brancas.
Eu o remeti a algumas fotos antigas de seus pais, tiradas durante a Eco-92 e
fiz com que ele associasse a felicidade amorosa expressada por seus pais
naquele momento com ideais bucólicos de flores combinadas com liberdade. As
flores, nos cabelos de sua mãe naquelas fotos, naquelas fotos que o olhar de sua
mãe demonstrava involuntariamente estáveis e alegres relações sexuais, também
eram rosas. Rosas brancas.
A partir daí eu não lhe dei trégua. Fiz com que ele gostasse
apenas do início de Alice no País das Maravilhas, quando ainda havia menções a
campos floridos e à liberdade contra as regras da lógica – aticei-lhe
repugnância no capítulo em que pintam as rosas brancas de vermelho. Causei-lhe
sono devastador para que escapasse imediatamente da leitura e ele passou a
dizer a todos que aquele era um livro chato, que odiava fantasia e gostava
mesmo dos livros biográficos.
Falava a seus amigos de adolescência que seu filme favorito
era Coração Valente. Boa saída. Aproveitou o tema da liberdade e dos campos
verdes, temas que eu também usava para excitá-lo. Mas não era a verdade
absoluta.
Seu filme favorito – que lhe arrepiava e aprazia como nenhum
outro – era um outro clássico também lançado durante sua tenra infância:
Titanic. Porque a protagonista se chamava Rose. E porque ela era branca. Sim,
se ela tivesse outro nome ou se fosse negra (ainda que as condições históricas
permitissem), ele não teria sentido absolutamente nada com aquele filme. Eu não
tinha muitos escrúpulos naquela época – como não existem leis contra sistemas
nervosos preconceituosos, eu tornava ele extremamente discriminatório, ainda que ao
mesmo tempo, para protegê-lo da condenação por sua comunidade, eu fizesse com
que ele teimasse em não reconhecer seu racismo.
Aproveitei para que o filme lhe trouxesse um novo desejo
inconsciente: que caso ele morresse (pois eu costumava fazer ele acreditar que
jamais morreria), ele morreria por amor.
Pois faz alguns dias ele estava caminhando na Cidade Nova,
em direção ao metrô. Tinha acabado de fazer a inscrição na faculdade para
biologia (eu me orgulhei de o ter conduzido gradativamente a esse curso para
mais tarde direcioná-lo à botânica) e, confiante a respeito do novo futuro a
sua frente, retornava para casa. Foi então que ele a viu. Ela, uma jovem
estudante de cabelos louros acastanhados, de pele dourada pelo verão carioca,
que seguia no mesmo sentido. Usava um vestido azul.
Decorado de rosas brancas.
Ele acompanhou por todo o caminho até o metrô o baloiçar de
seu vestido, acreditando que se encantara exclusivamente pela moça. Pobre
rapaz, chegou a raciocinar que o vestido era apenas o invólucro da beleza que
ele detectara exclusivamente nela.
Ao chegarem, a estação estava lotada. Centenas de pessoas
caminhavam para fora, manifestamente frustradas. Confusão. Por que? “Para eu
esperar o dinheiro do bilhete vou ficar aqui até amanhã”. Problemas de “tráfego
irregular devido a uma avaria em uma das composições”. Milhares de pessoas se
acumulavam entre as bilheterias e as roletas. “O jeito é pegar um ônibus”.
“Onde eu pego ônibus aqui para a Pavuna? Vou ter que voltar até a Central?”
Ele ficou desorientado. A culpa não é toda minha, não tive
muitos estímulos de multidão para trabalhar com ele. A moça do vestido de rosas
brancas se aproximou. Ela também estava desorientada. Ele olhou para ela e os olhos dela encontraram os
dele. Então ele convenceu-se de que havia algo de engraçado naquela confusão
para que se sentisse suficientemente seguro para sorrir. Ela retribuiu o
sorriso. Caminhou até ele e perguntou se ele sabia a melhor forma de chegar no
Flamengo. Ele explicou detalhadamente
quais os ônibus na Presidente Vargas lhe serviriam. Ela se despediu, ainda
sorrindo. Ele estancou. Queria segui-la, mas não teve certeza se era seguro.
Bem, com o intuito de protegê-lo da dor, eu fiz com que ele tivesse algum
receio de rejeição. No meio do caminho, antes de sair definitivamente da
estação, ela voltou-se para ele novamente e acenou, se despedindo.
O coração dele disparou. Não teve mais dúvidas, estava
apaixonado. Aquela era a mulher da vida dele e para ele não importava que seu
vestido tinha rosas brancas, que a saída da estação ativara nele certa sensação
de liberdade, que ali próximo havia um gramado que podia ver à distância –
nenhum dos truques que eu trabalhei meticulosamente para causar-lhe as
sensações do amor lhe importavam. Ele a amava.
Saiu agitado da estação. Procurou-lhe por entre a multidão
de frustrados e desorientados que circulavam olhando de um lado para o outro
sem escolher direção. Viu-a do outro lado da rua, já em cima do gramado que
outrora estava à distância, livre da multidão, com seu vestido de rosas
brancas.
Pela primeira vez na vida, atravessou a rua sem olhar para
os dois lados. Foi atingido em cheio por uma motocicleta que corria na
contramão, por motivos que me são ininteligíveis.
Ninguém jamais soube, mas ele morreu por amor.
FIM
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