segunda-feira, 23 de março de 2015

 ELE  MORREU  POR  AMOR



Ninguém jamais soube, mas ele morreu por amor. Foi uma história fascinante, a desse rapaz. Como posso começar?
Em primeiro lugar é bom que eu me apresente, o que no momento me parece a parte mais difícil dessa história. Eu sou o que se poderia chamar de expressão racional do complexo nervoso dele. Sou suas conexões nervosas, seu sistema límbico, suas programações genéticas sobre como reagir e criar modelos de pensamento a partir de cada manifestação de seu ambiente. Sou a expressão do que havia de inexpressável nele; a razão manifestada a partir do que nele havia de irracional; o pensamento advindo de interações nervosas que jamais puderam progredir à consciência. Se quiser, por conveniência, pode me chamar de “alma” dele. Só que eu não vivo fora do corpo dele. Ele morreu e eu morri junto.
Apenas no dia de sua morte fui capaz de gerar essa expressão em palavras, contar essa história. Por que? Por compaixão. Deve ter sido por uma falha na replicação do DNA, dessas que dão de tempos em tempos e fazem as espécies alterarem, essa história de um complexo nervoso com compaixão. Geralmente nós, as “almas”, queremos que os desejos dos indivíduos que habitamos vão para o diabo – estamos apenas reagindo aos estímulos do meio ambiente e reprogramando sistemas mentais de acordo com as instruções genéticas que nos foram impostas. Mas eu me compadeci dele, pois ele sempre desejou que as pessoas soubessem que ele morreu por amor. Um desses desejos sem sentido que eu tive de dar a ele devido a alguns instintos sexuais e sociais.
Desde criança fiz com que ele sempre fosse muito vulnerável aos estímulos emocionais. Ouvia seu avô, por exemplo, com um senso raro de admiração, afeto e respeito. Seu avô lhe disse uma única vez para molhar os pulsos antes de pular na água fria e usei toda a admiração dele para programá-lo a, pelo resto de sua vida, executar ritual quase solene de mergulhar os pulsos na água, aguardar minutos e só então avançar no mar. Contou-lhe um dia uma história de atropelamento e eu o conduzi a sempre olhar para os dois lados antes de atravessar a rua.
Ele brincava com seus vizinhos do prédio de todo tipo de esporte. Desde sempre dizia que sua brincadeira favorita era o futebol. Não era. Ele não sabia, mas sua brincadeira favorita quando era mais criança era o cabo de guerra. Ignorou esse sublime sabor por cessão aos desejos de seus amigos. E, depois de adolescente, enquanto continuava dizendo que seu jogo favorito era o futebol (uma vez disse que era apostar corrida, devido ao calor de uma vitória, mas logo esqueceu), sua brincadeira favorita era mesmo o jogo de adedanha. Para quem não sabe, adedanha é aquele jogo em que se sorteia uma letra e cada jogador tem que falar uma palavra começando por aquela letra, geralmente de acordo com diferentes categorias (animal, cidade, objeto). Nessa época, ele  jogava muito com seus pais e com sua irmã.
Um dia um amigo mais velho da família também jogou. Dei a ele uma vontade enorme de se mostrar inteligente perante o estrangeiro, tão grande que ele se afobou e errou uma palavra simples. País com A: América. Todos riram dele. Ele  queria fugir, queria sumir dali. Não soubera onde estava com a cabeça. Eu sabia. Ele estava com a cabeça concentrada em ser melhor contra o intruso que invadira o jogo favorito dele com sua família. Desde esse dia passou a dizer que não gostava de nenhum jogo “parado”. Reforçou a tese da preferência pelo futebol. Era mentira. Ele sempre guardou consigo as delícias daquele jogo. E toda vez que negava brincar com algum grupo, para manter a imagem que então criara de si, remoía-se por dentro.
Sim, eu programei sua mente para impedi-lo de querer jogar de novo, de modo a fugir da decepção. Fazer o que? Naquela época eu não tinha nenhuma compaixão. Não tinha nenhum remorso, por exemplo, de programá-lo a apertar sempre três vezes o botão do andar desejado no elevador, e de lhe causar angústia inescapável quando alguém apertava mais ou menos vezes o botão. Era assim que tinha que ser, para estimulá-lo a buscar padrões – uma característica fundamental num mundo em que quem melhor organiza as informações recebidas tem melhor chance de obter recursos para sobreviver.
Mas enfim, naqueles tempos passados, quando ainda jogava adedanha com sua família, seu momento de maior felicidade era quando tinha que preencher flor com a letra R. Ele colocava “rosa” e passava rapidamente para a próxima coluna. Não havia necessidade de ficar ponderando sobre outra flor, raciocinava. Só eu sabia a verdade. Que quando ele preenchia “rosa”, sua hipófise lhe lançava endorfinas através do sistema sanguíneo e ele suspirava. Que seu pensamento profundo, oculto, era rosas brancas. Não a palavra em si, mas todo o efeito que a imagem, o odor ou a menção ao nome gerava nas intrincadas conexões com as quais eu costumava trabalhar em sua mente.
Este o fato que eu sempre escondi dele: a partir do início de sua adolescência, a maior parte de sua excitação sexual, passional ou amorosa em qualquer sentido, em todas as áreas de sua vida, esteve vinculada a rosas brancas.
Permita-me explicar. Quando ele  iniciou as experimentações da puberdade (especialmente as excitações mentais, estas que costumam passar esquecidas pelos fisiologistas), ele  viu uma figura numa revista com uma mulher deitada num campo verde e rodeada de rosas brancas. Eu o remeti a algumas fotos antigas de seus pais, tiradas durante a Eco-92 e fiz com que ele associasse a felicidade amorosa expressada por seus pais naquele momento com ideais bucólicos de flores combinadas com liberdade. As flores, nos cabelos de sua mãe naquelas fotos, naquelas fotos que o olhar de sua mãe demonstrava involuntariamente estáveis e alegres relações sexuais, também eram rosas. Rosas brancas.
A partir daí eu não lhe dei trégua. Fiz com que ele gostasse apenas do início de Alice no País das Maravilhas, quando ainda havia menções a campos floridos e à liberdade contra as regras da lógica – aticei-lhe repugnância no capítulo em que pintam as rosas brancas de vermelho. Causei-lhe sono devastador para que escapasse imediatamente da leitura e ele passou a dizer a todos que aquele era um livro chato, que odiava fantasia e gostava mesmo dos livros biográficos.
Falava a seus amigos de adolescência que seu filme favorito era Coração Valente. Boa saída. Aproveitou o tema da liberdade e dos campos verdes, temas que eu também usava para excitá-lo. Mas não era a verdade absoluta.
Seu filme favorito – que lhe arrepiava e aprazia como nenhum outro – era um outro clássico também lançado durante sua tenra infância: Titanic. Porque a protagonista se chamava Rose. E porque ela era branca. Sim, se ela tivesse outro nome ou se fosse negra (ainda que as condições históricas permitissem), ele não teria sentido absolutamente nada com aquele filme. Eu não tinha muitos escrúpulos naquela época – como não existem leis contra sistemas nervosos preconceituosos, eu tornava ele  extremamente discriminatório, ainda que ao mesmo tempo, para protegê-lo da condenação por sua comunidade, eu fizesse com que ele teimasse em não reconhecer seu racismo.
Aproveitei para que o filme lhe trouxesse um novo desejo inconsciente: que caso ele morresse (pois eu costumava fazer ele acreditar que jamais morreria), ele morreria por amor.
Pois faz alguns dias ele estava caminhando na Cidade Nova, em direção ao metrô. Tinha acabado de fazer a inscrição na faculdade para biologia (eu me orgulhei de o ter conduzido gradativamente a esse curso para mais tarde direcioná-lo à botânica) e, confiante a respeito do novo futuro a sua frente, retornava para casa. Foi então que ele a viu. Ela, uma jovem estudante de cabelos louros acastanhados, de pele dourada pelo verão carioca, que seguia no mesmo sentido. Usava um vestido azul.
Decorado de rosas brancas.
Ele acompanhou por todo o caminho até o metrô o baloiçar de seu vestido, acreditando que se encantara exclusivamente pela moça. Pobre rapaz, chegou a raciocinar que o vestido era apenas o invólucro da beleza que ele detectara exclusivamente nela.
Ao chegarem, a estação estava lotada. Centenas de pessoas caminhavam para fora, manifestamente frustradas. Confusão. Por que? “Para eu esperar o dinheiro do bilhete vou ficar aqui até amanhã”. Problemas de “tráfego irregular devido a uma avaria em uma das composições”. Milhares de pessoas se acumulavam entre as bilheterias e as roletas. “O jeito é pegar um ônibus”. “Onde eu pego ônibus aqui para a Pavuna? Vou ter que voltar até a Central?”
Ele ficou desorientado. A culpa não é toda minha, não tive muitos estímulos de multidão para trabalhar com ele. A moça do vestido de rosas brancas se aproximou. Ela também estava desorientada. Ele  olhou para ela e os olhos dela encontraram os dele. Então ele convenceu-se de que havia algo de engraçado naquela confusão para que se sentisse suficientemente seguro para sorrir. Ela retribuiu o sorriso. Caminhou até ele e perguntou se ele sabia a melhor forma de chegar no Flamengo. Ele  explicou detalhadamente quais os ônibus na Presidente Vargas lhe serviriam. Ela se despediu, ainda sorrindo. Ele estancou. Queria segui-la, mas não teve certeza se era seguro. Bem, com o intuito de protegê-lo da dor, eu fiz com que ele tivesse algum receio de rejeição. No meio do caminho, antes de sair definitivamente da estação, ela voltou-se para ele novamente e acenou, se despedindo.
O coração dele  disparou. Não teve mais dúvidas, estava apaixonado. Aquela era a mulher da vida dele e para ele não importava que seu vestido tinha rosas brancas, que a saída da estação ativara nele certa sensação de liberdade, que ali próximo havia um gramado que podia ver à distância – nenhum dos truques que eu trabalhei meticulosamente para causar-lhe as sensações do amor lhe importavam. Ele a amava.
Saiu agitado da estação. Procurou-lhe por entre a multidão de frustrados e desorientados que circulavam olhando de um lado para o outro sem escolher direção. Viu-a do outro lado da rua, já em cima do gramado que outrora estava à distância, livre da multidão, com seu vestido de rosas brancas.
Pela primeira vez na vida, atravessou a rua sem olhar para os dois lados. Foi atingido em cheio por uma motocicleta que corria na contramão, por motivos que me são ininteligíveis.

Ninguém jamais soube, mas ele morreu por amor.

                                                 FIM

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